Linhares da Beira

Linhares da Beira

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Notas Históricas

Linhares é uma bela aldeia histórica do concelho de Celorico da Beira, verdadeiro museu ao ar livre, com um passado rico bem guardado até aos nossos dias. Cada uma das pedras das magníficas ruas que aqui existem, contam-nos histórias fantásticas, e a importância que esta aldeia teve no passado.
Situa-se na meia-encosta da vertente nordeste da Serra da Estrela, à altitude de 180 metros. Merece, de facto, uma atenção especial de qualquer visitante interessado, pois permite vislumbrar magníficas paisagens, cultura e arte medievais e renascentistas, respirar ar puro e beber águas frescas e cristalinas da Serra. Tem uma paisagem montanhosa, típica da Beira. Da estrada que dá acesso a Linhares, com um pavimento muito bom, pode complementar-se a maravilhosa paisagem. Através do fogo e do corte abriram-se clareiras no meio florestal que permitiram o avanço progressivo dos arbustos. Desta forma, vemos vastas áreas onde domina o estrato arbustivo, muito característico. É, sem dúvida, bastante bonito observar as encostas amarelas, com a Giesta-das-Serras (Cytisus Striatus), também os piornais (Genista Florida), e ainda o Sargaço (Halimium alyssoides).
Vila de fundação medieval, com foral concedido em 1169 por D. Afonso Henriques, Linhares virá a perder este estatuto de centro urbano aquando da reforma administrativa liberal de 1855. Apesar do local ter conhecido a fixação de povos pré-romanos e existir registo escrito da passagem de romanos, visigodos e muçulmanos, a história de Linhares, associada à estrutura fortificada e modelo urbanístico hoje consolidados no seu núcleo histórico, tem origem no contexto gerado com a reconquista Cristã. Estabilizadas as fronteiras do reino português, Linhares continuou a ter significado estratégico pelo menos até ao século XVII, pois fazia parte do sistema defensivo que guardava a Bacia do Mondego, na retaguarda das fortificações da raia beirã.

A estrutura de ocupação do espaço da antiga vila de Linhares conjuga assim um tipo característico de povoamento medieval (séculos XVII-XIX), com desenvolvimentos significativos no período quinhentista (século XVI). Nesta centúria a vila terá atingido uma configuração próxima da actual, ainda que no património edificado pesem, pelo impacto no tecido urbano, algumas construções mais tardias(séculos XVII-XIX).

O castelo, implantado num cabeço rochoso a cerca de 820 m de altitude e dominando o Vale do Mondego, constitui o núcleo gerador do aglomerado. Na encosta, sobranceira à várzea de Linhares e cruzada por antiga via romana, estendeu-se a povoação: o sistema fortificado, entregue a um alcaide e dispondo de pequena guarnição militar, defendia um território bem como a sua população e bens; o foral, concedido pelo Rei, prescrevia a autonomia concelhia e organizava a vida económica e social do povoado; a Igreja estabeleceu as paróquias. A estrutura urbana de Linhares e a disposição dos seus espaços fundamentais reflectem esta organização militar, administrativa e social.

A vila descreve, no sopé do Castelo, um perímetro triangular, em cujos vértices se situam três espaços ordenadores da malha urbana: o Lg. da Misericórdia, à entrada da povoação; o Lg. de S. Pedro, na zona denominada “Cimo da Vila”; e o Lg. da Igreja, próximo do Castelo e no acesso ao Campo da Corredoura, terreno de uso fruto comum. Estes largos definiram-se em torno de igrejas – hoje desaparecida a de S. Pedro – e constituíam o centro das paróquias de fundação medieval. Na base do triângulo e no ponto oposto à Matriz, localiza-se o Lg. do Pelourinho, outrora o centro cívico da Vila. A malha urbana desenvolvida dentro destes limites foi muito condicionada pela natureza acidentada do terreno e por limitações de espaço, onde as construções se levantaram sem obediência a uma planificação prévia. Daí os quarteirões irregulares, as ruas estreitas e de perfil sinuoso, as travessas a recortarem as casas, umas e outras pontuadas por escadas.

No património arquitectónico de Linhares destacam-se alguns edifícios ligados à vivência urbana mais antiga de Linhares. Da assistência ao peregrino, pobres e doentes sobra-nos o edifício do Lg. da Misericórdia, que acolheu duas instituições típicas da sociedade medieval e moderna – a Albergaria e o Hospital. Também do abastecimento de água, temos para observar três fontes documentando esta arquitectura de equipamento dos séculos XII, XVI e XIX. No domínio da habitação os exemplos são mais profusos. Além da casa tradicional e popular disseminada por toda a vila, contam-se as casas nobres dos séculos XVIII-XIX e destacam-se, pelo número avultado de testemunhos, aquelas que mostram janelas e portas decoradas ao gosto Manuelino (século XVI), quase sempre moradias de proprietários agrícolas mais abastados ou de burguesia local ligada ao comércio. Entre estes encontrava-se a comunidade judaica, minoria étnica e religiosa obrigada a viver apartada da comunidade cristã e cujo bairro – judiaria – se situava numa transversal à Rua Direita: sobre a porta de acesso ao bairro (Arco) figura uma das mais elaboradas janelas manuelinas de Linhares.

Lendas e Tradições

Os habitantes de Linhares gozam da fama histórica de se distinguirem pela bravura. Segundo conta a tradição, no sítio de Azurara, próximo de Mangualde, existiu um castelo que deu o nome á igreja desta invocação, habitado por um chefe mouro de nome Zurar, o qual semeava o terror naquelas paragens. Os serranos de Linhares venceram-no e expulsaram-no. Pelo que a Câmara de Viseu ia todos os anos à ermida, em romagem, e do mais alto monte o Alferes-mor voltava-se para o lado de Linhares agitando o estandarte municipal, como que a saudar os libertadores do lugar e exclamando três vezes seguidas: Victor Linhares.

TOPONÍMIA

Geira: deriva de Jugerum; era uma certa medida de terreno maior ou menor, conforme o uso da terra. Ainda hoje quando se chama um lavrador para todo dia é costume dizer-se: pago ou pagarei uma geira.

Besteiros: estavam agrupados em diversas categorias e assim se denominavam: besteiros de garrucha, de bodoque, de pelouro, de polé, de câmara, de cavalo, de fraldinha, do mar, do monte, do couto, segundo a especialidade dos dardos usados ou das funções exercidas.